sábado, 21 de novembro de 2015

Saluba Nanã!


Esta última semana foi uma semana difícil para a humanidade. Minas, Paris, Japão, Síria, são apenas alguns exemplos. Mas em nossas esferas pessoais também encontramos dificuldades, e acredito que uma delas seja a dificuldade em entender que somos seres complexos, que não precisamos nos polarizar. O que isso significa? Que não precisamos estar o tempo todo “contra” ou “a favor” de algo, nem ser especificamente uma coisa ou outra, temos muitas características, tudo que acontece nas nossas vidas constrói quem somos. Não existem pessoas ou entidades completamente “do bem” ou “do mal”, boas ou más são as ações que são tomadas e, entenda, não estou querendo defender ou acusar ninguém neste momento. Pense bem, para podermos ajudar a melhorar o mundo de alguma maneira, não é mais produtivo entendermos os “porquês” e ser pelo menos um pouco compreensivos? Se entendemos como as coisas funcionam e o motivo delas acontecerem, é mais fácil de mudarmos com consistência o rumo, o curso dos acontecimentos.
Hoje em dia, principalmente, mas não somente nos ativismos online, as pessoas estão sempre preocupadas em ler textos breves, e formar opiniões rapidamente. Passamos muito tempo dando scroll no facebook só parando para ver posts breves, com uma imagem forte e algumas frases que costumam ser polarizadas, que não deixam espaço para diálogo. E se usássemos este tempo para ler algo com mais calma, para assistir pessoas tendo debates reais, ou mesmo tendo conversas reais com as pessoas e falando sobre o mundo de maneira profunda, como as coisas merecem serem conversadas? E se fossemos capazes de perceber e neutralizar o capacitismo, racismo, transfobia, homofobia, machismo, gordofobia, intolerância religiosa e de qualquer outro tipo dentro de nós mesmos e nos outros, ajudando a desconstruir o que for necessário? Empoderando aqueles que julgamos que precisam acreditar mais em si (e isso pode incluir a si próprio)?
Tantas são as dicotomias que se colocam no mundo, e que poderiam ser quebradas. Negros, brancos, heterossexuais, homossexuais, religião, ciência, mulheres, homens, Minas, Paris... todos sofremos, muitos fazem os outros sofrerem. Será que é de mais agressão e mais violência que precisamos para mudar? Podemos aprender, podemos dar forças a quem precisa de forças, oferecer apoio e amor a todos os enfermos, e não apenas os que vemos mais na TV ou os que estão mais próximos. Somos todos seres viventes desse planeta, e é uma ilusão pensar que nossas ações diárias não têm consequências no mundo.
Veja bem, não estou dizendo que não há motivo para indignação, para raiva, para tristeza. Meu questionamento é acerca do que fazemos sobre esses sentimentos. Agir com raiva com indignação, com pesar, com medo, não gera a mudança que precisamos ver no mundo, a mudança da tolerância, da paz, da aceitação, da colaboração. Mudanças nos paradigmas do próprio capitalismo, do próprio sistema de classes, de gênero, mudanças dentro das religiões para buscar o fim do fundamentalismo. Muitas coisas precisam ser feitas, mas acredito que propagar o ódio, a raiva, no momento não é uma delas.
Presumir que qualquer grupo específico tenha o mesmo conjunto de características é o que se define como preconceito. Acreditar que o fundamentalismo é algo exclusivo de uma religião, ou que está presente em todos os templos e casas de espiritualidade é preconceito. Sabemos que está presente em muitas, mais do que deveria, está presente no Brasil, por exemplo, e tira vidas de diversas minorias diariamente. É importante entender que o problema está em ser extremista, fundamentalista, não aceitar divergências, o que ele pode acontecer na política, na filosofia, mesmo na arte, não é uma exclusividade religiosa. Acreditar que Minas ou a Síria ou Paris ou qualquer lugar do mundo tem valor maior ou menor. Todas as pessoas deveriam ter direito a coexistir de maneira saudável, não faz sentido colocarmos vidas humanas em uma balança.
Ontem no templo de umbanda que frequento, cantamos juntas um ponto para Nanã senhora. Saluba Nanã! “Nanã é protetora nas situações tormentosas e nas perseguições kármicas (...) Conhecida no meio umbandista como a senhora da lei e da firmeza, a ela recorrem todos os que estão em dúvidas nas situações tormentosas da vida.” Seus domínios são os mangues, os ribeirões, ela é senhora das águas paradas e da chuva, da lama. A lenda diz que quando Oxalá criou a humanidade ele criou com o barro que Nanã lhe deu, e com o sopro de Olorum ele caminhou. Mas quando morremos, devemos retornar a terra, a Nanã, a nossa mãe.
O que acho importante é lembrar, nessa semana tão difícil, que somos parte de um todo, mesmo para quem não acredita (e todos tem o direito de acreditar apenas no que quiserem, ou em nada, pois somos livres para isso) que somos centelhas divinas, pensando de uma maneira mais estrutural, nós dividimos a mesma casa, que é esse planeta. E acredito que uma casa cheia de amor é uma casa mais feliz do que uma casa cheia de rancor e discórdia. Espero que possamos manter a calma nesses momentos de tamanha dificuldade, mas que isso não nos deixe inertes, dormentes. Que possamos lutar pelo que achamos justo, mas que essa luta seja principalmente através da sororidade, da fraternidade, do carinho, da colaboração e da consciência.

~ Louie Marine